Ao longo de mais de 50 anos trabalhando com educação inclusiva, uma distinção fundamental se tornou cada vez mais clara para mim: incluir e pertencer são conceitos profundamente diferentes. Enquanto a inclusão muitas vezes se limita à presença física, o pertencimento envolve uma transformação muito mais profunda e significativa.
A diferença entre incluir e pertencer
Quando falamos em incluir, geralmente estamos nos referindo a garantir que uma pessoa esteja presente em um espaço — seja na escola, na família ou na comunidade. É um primeiro passo, sem dúvida importante, mas que por si só não garante que essa pessoa se sinta verdadeiramente parte daquele contexto.
Pertencer, por outro lado, vai muito além. Pertencer significa ser reconhecido, valorizado e acolhido em sua singularidade. É ter voz, é poder contribuir, é sentir-se parte integrante de um tecido social onde cada fio importa e cada pessoa tem seu lugar único e insubstituível.
O que acontece quando apenas incluímos?
Em nossa experiência, vimos muitas situações onde a inclusão aconteceu, mas o pertencimento não. Crianças e jovens que estavam fisicamente presentes na escola, mas que não se sentiam parte dela. Famílias que participavam de reuniões, mas cujas vozes não eram verdadeiramente ouvidas. Pessoas que estavam nos espaços, mas não nos processos.
Essas situações geram um sentimento de isolamento que pode ser ainda mais doloroso do que a exclusão explícita. É como estar em uma festa onde todos estão dançando, mas você não conhece os passos — e ninguém te ensina.
Como construir pertencimento?
Construir pertencimento requer uma mudança de perspectiva fundamental. Não se trata apenas de abrir portas, mas de criar espaços onde cada pessoa possa ser ela mesma, com suas potencialidades, desafios e singularidades.
1. Escuta verdadeira
O primeiro passo é aprender a escutar — não apenas ouvir, mas escutar de verdade. Isso significa criar espaços onde as pessoas possam expressar suas necessidades, desejos e perspectivas, e onde essas vozes sejam levadas a sério e incorporadas nas decisões.
2. Adaptação e flexibilidade
Pertencer não significa se adaptar a um molde pré-existente. Significa que o próprio contexto se adapta para acolher cada pessoa em sua singularidade. Isso requer flexibilidade, criatividade e, acima de tudo, vontade de transformar.
3. Integração dos contextos
O pertencimento verdadeiro acontece quando família, escola e comunidade trabalham juntas, como um tecido único. Cada contexto reforça e complementa o outro, criando uma rede de apoio consistente e acolhedora.
4. Protagonismo e autonomia
Pertencer significa ter voz ativa, poder fazer escolhas e ser reconhecido como autor da própria história. É oferecer o tear — mas deixar que cada pessoa teça seu próprio caminho.
O papel da educação
A educação tem um papel fundamental nessa transformação. Uma educação verdadeiramente inclusiva não apenas recebe todas as pessoas, mas cria condições para que cada uma possa florescer em sua singularidade.
Isso significa repensar práticas, metodologias e, principalmente, relações. Significa questionar o que consideramos "normal" e abrir espaço para a diversidade como riqueza, não como problema a ser resolvido.
Conclusão: tecendo juntos
Pertencer é muito além de incluir. É um processo contínuo de construção, onde cada pessoa, cada família, cada educador tem um papel fundamental. É tecer juntos um tecido social onde cada fio importa, cada pessoa pertence e cada história é valorizada.
No Instituto Espaço Tear, acreditamos que essa é a única forma de construir uma educação verdadeiramente transformadora — uma educação que não apenas inclui, mas que faz cada pessoa se sentir parte integrante e insubstituível de um todo maior.
Deizi Terezinha Delovo
Fundadora e Diretora do Instituto Espaço Tear